1 de março de 2016




E aí que eu ia escrever um post sobre como foi bom reencontrar uma pessoa querida que eu pensava que tinha perdido por aí, de como as lembranças aos poucos foram se reavivando e enchendo de novo meu coração de carinho e nostalgia, de como a intimidade que tínhamos estava só adormecida, mas não me cabem as palavras. 
Que coisa incrível isso de ser humano! De ter almas que se reconhecem a despeito de palavras, estado civil, cor da pele, tempo... Que magnífico não ter que se explicar, nem se sentir obrigado a contar tudo que se passou, e ir aos poucos vendo que a essência é aquela mesma de vinte anos atrás. E que assombro perceber que a gente nunca vai se perder!  


14 de agosto de 2013

A parte que me cabe

Há alguns anos parei de assistir TV e acompanhar notícias. Toda aquela violência e escândalo me deixavam impotente e depressiva. À medida que o noticiário crescia com notícias de corrupção, catástrofe, miséria, abandono, eu diminuía no sofá da minha sala. E aquela uma única notícia boa, ou quase boa, não era suficiente para eu recuperar minha fé na humanidade. Tampouco servia como inspiração.

Recentemente deixei de assistir filmes de hollywood, especialmente comédias românticas e afins. O mocinho nunca volta no final e na vida real as coisas não são tão engraçadas assim. Nem passam tão rapidamente. É meio cínico, eu sei, mas vai muito contra todo esse mundo de teorias e livros e modas de mindfullness. Nada mais fora do presente que uma sala de cinema (e essa é a mágica).

Dizem que a cada crítica que se ouve são necessários cinco elogios para eliminar o efeito negativo daquilo na sua alma. As pessoas, eu não sou exceção, têm mais facilidade em acreditar no que os outros falam de ruim sobre elas do que em aceitar um elogio sem desculpas ("Isso? É só uma roupa velha que achei no fundo do guarda-roupa". "Eu? Imagina! Fiz foi ganhar peso" e por aí vai).

No entanto, é uma batalha diária me separar de outras coisas, hábitos e pessoas que me fazem mal. A pessoa tá careca de saber que faz mal, mas continua se deixando ficar, se deixando atrair e se perder. E aí um oceano de ansiedade me engole querendo resultados e mudanças para ontem. Difícil não me consumir com tantos porquês. Até eu me lembrar que sou humana e que essa é a tal cruz que cada um carrega. A cruz não são os outros. Sou eu mesma.




24 de junho de 2012

Da falta de fé



O que a gente se esquece é que é preciso muito esforço para se tornar alguém e sair do limbo e eu ando cansada de me esforçar. Desistir é sim uma opção. Quando se prefere acreditar na mentira, mesmo sabendo perfeitamente qual é a verdade. Quando se prefere a inércia ao pulo. Quando, enfim, se dorme esperando que só acordemos quando tudo tiver resolvido. O problema, meus caros, é que tenho insônia.

18 de maio de 2012

An affair to remember



Às vezes tenho a sensação de que vivo em outro tempo, em uma dimensão aqui dentro da minha cabeça. E depois que as coisas passam é que vou vivê-las, na minha cabeça. Para onde eu vou no presente? E se meu tempo não é o seu tempo, não adianta você esperar porque eu não estarei lá, mesmo que nosso encontro tenha lugar e hora marcada.

9 de maio de 2012

A graça



Meu psicólogo recentemente se juntou ao clube dos que se espantaram ao me ver chorar pela primeira vez. Aparentemente sou uma pessoa à prova de lágrimas, até que eu prove o contrário. Falávamos da minha habilidade de ver primeiro o errado, o torto, o fora de foco e depois o correto, o bom. E digo isso sem peso na consciência e sorriso tristinho porque acredito piamente que há espaço para pessoas com esse dom no mundo. Não fosse assim, quem faria os controles de qualidade?

Mas faço distinção entre criticar e ver o odd one out. Não que eu o procure; ele vem aos meus olhos. Depois que meus olhos se acostumam, vejo o todo, o conjunto e a harmonia. E gosto ou não gosto. Aí vem a crítica. Segundo alguns amigos, ácida, mas geralmente divertida, e sempre, sempre muito sincera.

Como qualquer coisa em excesso, quando me deixo levar pelo negativo, me esqueço de ser grata e sofro, porque a vida fica terrivelmente difícil de ser vivida e sem sentido se não se vê sua beleza.
Não é que ela não exista. Está lá, mas aos poucos meus olhos perdem a capacidade de vê-la (quem sofre de depressão sabe bem do que estou falando).

E justamente por isso, resolvi fazer um experimento sobre o qual li um dia desses. Toda noite, revejo meu dia e penso em uma coisa pela qual estou grata, sem repetir, e escrevo sobre ela. Segundo o estudo, se uma pessoa fizer isso durante vinte e um dias seguidos, "treina" o cérebro a achar o positivo e o bom mesmo na pior das situações.

Descobri então que isso que eu chamava de dom é, na verdade, uma habilidade e como tal deve ser praticada. É como andar de bicicleta: seu cérebro aprende esse caminho e depois vai automaticamente pra lá. Parece coisa de auto-ajuda, né? Talvez seja, mas era um estudo científico e para mim é mais do que um teste empírico. É exercício. Pessoas que têm pouca tolerância pela ineficiência e mediocridade como eu precisam praticar o elogio, o reconhecimento e a gratidão. Quem sabe assim aprendo a ser mais leniente até mesmo comigo mesma e me permita chorar de emoção mais frequentemente?

3 de maio de 2012

Do que é bom



Tempo atrás eu estava com uma alergia estranha nas pernas e meu dermato me passou uma loção para aliviar os sintomas. Nunca precisei usar, mas agora que o calor está chegando em Roma, a pele começou a reclamar e eu fui atrás da dita cuja, que tem o charmoso nome de "Sarna". Acontece que a Sarna tem um cheiro forte e não muito agradável e, tal qual o nome em português, gruda na pele de tal modo que nem múltiplos banhos conseguem tirar. 

Daí que eu comecei a pensar que tudo isso que "faz bem" quase sempre faz mal ao nariz. É muito chique xampu de aloe vera, mas passar babosa no cabelo espanta qualquer prospecto de namorado. Do mesmo modo, a pomada hipoglós que está no mercado desde que eu me entendo por gente e que serve pra queimadura e valha-me-Deus-o-que-mais tem o aromático cheiro de óleo de peixe, igualzinho ao da Emulsão de Scott.

O que é bom para gente não tem glamour nenhum. O par de estiletos, o corsete, a massa... tudo isso faz mal, mas a gente vai sacrificando assim mesmo e deixando o humano na gente para aqueles dias em que estamos sozinhos e nem o vizinho abelhudo consegue ver. Aí colocamos as pantufas de urso panda, o pijama de flanela e a máscara de argila do Mar Negro e dançamos no meio da sala, de preferência com uma cenoura no papel de microfone.

12 de janeiro de 2012

GAP



Não tenho e scrito porque estou no meio de um hiato. Me deixei levar entre tantas coisas que aconteceram ultimamente:mudança, casa nova, aprender uma língua, fazer amigos, comemorar, tirar férias, planejar novas férias, novos desafios no trabalho. Enquanto isso, fiquei calada por dentro, meio que absorvendo todo esse burburinho, até recomeçar a terapia. Quem faz terapia para se resolver precisa entender que dá muito trabalho. Precisa saber que se pergunta mais do que responde e nem sempre se acha resposta. Mas resolve, sabe? Resolve uma coisinha de cada vez, lenta e progressivamente. A questão é saber o que resolver primeiro. Como diria Clarice, nunca se sabe qual coluna sustenta todo o seu edifício.

8 de dezembro de 2011

No consultório psiquiátrico

Você é neurótica? Feliz? Gosta da noite? Gosta da sua vida? Tem certeza? É desconfiada? Ciumenta? Se considera brasileira? Ouve vozes? Em que posição dorme? Tem múltiplas personalidades? Com quem estou falando agora? Tem certeza? Bebe? Bebe quanto? Tem mania? TOC? Quantas vezes lava as mãos por dia? O que precisa para ser feliz? É casada? Por que não? Tem animal de estimação? Fobia? Prefere o sol ou a lua? Acredita em Deus? Destino? Reincarnação? Papel higiênico com a folha para cima ou para baixo? Qual o sentido da vida? Tem medo de morrer sozinha? Tem certeza? Pode ir para casa, não há nada de errado com você.

26 de outubro de 2011



No dia em que completei trinta anos, uma de minhas melhores amigas me liga para me dar os parabéns e me lembrar que minha corrida contra o relógio estava começando. Daí em diante, sempre tem alguém por perto que se incomoda com o fato de eu ser (ou será estar?) solteira. E por que será que incomoda o stigma? O artigo All the Single Ladies da escritora norte-americana Kate Bolick  examina de perto a causa do número crescente de mulheres solteiras no mundo e chega à seguinte conclusão: ou a mulher aceita casar-se com um homem "bom o suficiente" ou precisa rever os conceitos tradicionais de família, romance e casamento.

O primeiro fator culpado do aumento do número de solteiros é o fato das pessoas estarem se casando cada vez mais tarde. Isso devido à mentalidade contemporânea de atigir primeiramente satisfação pessoal; ou seja, antes de formar família, vêm estudos, carreira bem sucedida e independência financeira. Chega-se ao ponto de discriminar a mulher que se diz "do lar" (será que ela não tem ambição? auto-estima? vergonha?).

Do mesmo modo, as mulheres têm engravidado mais velhas, quando decidem ter filhos, e não dependem do homem para fazê-lo graça aos avanços da medicina. Uma conhecida acaba de dar à luz aos quarenta e dois anos em uma gravidez de fazer inveja às adolescentes. Seja por opção ou por abandono, ser mãe solteira deixou de ser motivo de vergonha ou desonra.

Outro fator desfavorável ao casamento é o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres na maioria dos países. Estudos mostram que em sociedades onde há mais homens, embora os direitos como educação e salário das mulheres diminua, há maior valorização do sexo feminino, mais casamentos e menos divórcios. Infelizmente, o contrário não se aplica. Em sociedades onde o número de mulheres é maior do que o dos homens, aumenta a margem de promiscuidade masculina e a taxa de casamentos cai. Nem é preciso dizer que nesse modelo quem se benefícia são os homens, que passam a ditar as regras do jogo. Considere que um bom partido pode se dar ao luxo de trocar de parceira o quanto quiser e não se comprometer com nenhuma.

Em quarto lugar, Bolick afirma que o movimento feminista gerou a ascensão da mulher e o consequente declínio do homem (a literatura sobre esse assunto é riquíssima). Há inúmeros estudos que comprovam que atualmente a mulher é  mais bem qualificada profissional ou educacionalmente do que o homem. Com mais mulheres assumindo cargos altos e ganhando mais, fica mais difícil encontrar homens do mesmo nível social. O resultado? O homem aceita não ser mais o provedor da família e a mulher aceita um homem de nível inferior ao seu.

Mas nem tudo é ruim neste cenário. Com a independência feminina, o casamento passa a ser uma escolha e não um meio de ascensão social ou obrigação e o conceito atual de um bom relacionamento abrange casais cada vez mais mistos: mulheres mais velhas com homens mais novos, mais ricas com mais pobres, mais altas com mais baixos, etc). Diante desses dados sei que parece que achar um companheiro parece ser um lance de sorte. E é. Mas se olharmos de um outro ângulo, não é também sorte sermos testemunhas de tantas mudanças e poder vivenciar um mundo com mais possibilidades?


15 de setembro de 2011

Uma casa muito engraçada




Quem morou ou mora no exterior sabe o quanto é importante encontrar uma casa que tenha seu nome escrito em dourado na porta, convidando você a ficar porque, no frigir dos ovos, este será o único lugar no país em que você se sentirá “em casa”. Apesar de eu já ter morado fora, estou prestes a descobrir qual é a cara dessa minha casa. Sim, porque antes eu morava com outra pessoa, que também ajudou a criar tudo aquilo, e depois fui morar em um apartamento já mobiliado, que tinha a carinha das madames americanas e muito pouco da Marília. Assim, em busca dessa idéia que nem imagem tem, comecei a procurar lugar para morar em Roma, dentro dos meus limites orçamentários e dos meus sonhos platônicos.
Começamos com o básico, certo? A casa deve ter quarto, banheiro, sala e cozinha. Errr… nem todas. Aqui muitos imóveis vêm sem cozinha ou com uma cozinha da Barbie para você relembrar os tempos de brincar de cozinhadinho.  Além do que é preciso estar preparado para dividir esse quase espaço com a lavanderia (por lavanderia entenda-se máquina de lavar). Você frita o bife com uma mão e torce a roupa com a outra.
Passemos aos quartos. Esses sim, enormes, largos, fartos e completamente vazios. Nem uma prateleira para amontoar as roupas. Mas também não precisa de armário, uma vez que não se vê nada de noite, já que faltam lâmpadas na maioria deles. Note to self: comprar abajures.
Banheiros têm. Às vezes até três em uma casa de dois quartos. E com muitos bidês já que espaço obviamente não é um problema em prédios centenares.
Depois de um mês de frustração, começo a entender o conceito de casa italiano. (Alguém pelamordeDeus pegue aquele bebê do vizinho e veja o que há de errado. Isso não é normal). O importante é que se more em um palazzo (prédio antigo) com elevador em que cabem somente dois etíopes e com teto de madeira. Ah, os tetos de madeira! Que esplendor! São tão importantes que tem site imobiliário que só põe foto do teto. Que importa o chão onde você pisa com um teto desses? Melhor ainda se o apartamento tiver os cômodos em vários planos, porque daí é só ficar olhando pro teto enquanto se transita pela casa. Ah, Michelangelo, que mal fizeste aos romanos!
Passa o primeiro um mês e começo a ficar impaciente.  Será que nenhum me serve mesmo ou estou sendo muito exigente? Quem precisa de cozinha na Itália? E lavanderia? Coisa de Amélia, isso. Começo a achar tudo carino (palavra especialmente importante quando não se sabe como classificar alguma coisa ou pessoa). Prédio sem elevador? Carino. Apartamento com um quarto e meio? Carino. Louça do banheiro do tempo da sua bisavó? Carino demais.
Agora é questão de achar um dentro do orçamento. A corretora me convence que consigo quase mil euros de abatimento com o proprietário, que negocia até a mãe, se necessário, mas logo vejo que não é bem assim. Depois de reduzir as expectativas e as possibilidades para quatro apartamentos, começo a fazer as ofertas. Un po’piu tarde. Esse já foi alugado. Aquele outro também. Este aqui está com outra pessoa que fez proposta. Começa a bater o desespero: puxa vida, será que nem apartamento eu consigo arrumar? E para aumentar em um grau minha perdição, preciso passar no quintal da casa da minha mãe, onde cultivo uma árvore de dinheiro, para poder pagar o tal depósito mais a comissão do agente imobiliário. Serão assim, de entrada, três aluguéis para o dono e um para a corretora. Isto é, se a comissão não for dez por cento do valor anual do aluguel, acrescido de vinte por cento de imposto. Nessa hora abro a lista telefônica e começo a procurar onde posso vender um rim.  Ficou um candidato. Afio a peixeira, esquento o sangue paraibano e faço uma proposta ousada. Vocês, façam figa (que depois conto o que significa aqui) e mandem pensamentos positivos senão não vão ter onde ficar quando vierem me visitar. A resposta eu digo quando tiver.

4 de setembro de 2011

Inferno astral




Estou tendo uma reação alérgica a Roma. Sort of. Na verdade, meu cabelo e minha pele resolveram se voltar contra mim e eu preciso culpar alguém. Nesse caso, o bode espiatório é a água. A água aqui é feita de uma molécula de calcário e duas de oxigênio, tudo muito bom para os vinhos e as esculturas, mas péssimo para meus frágeis (e rebeldes) cabelos. Daí que a pessoa descobriu que para manter a saúde dos meu cachos, terei de lavá-los com água mineral. Sim, vocês leram bem: água mineral. Além de ser um capricho um tanto custoso, imaginem a ginástica que é segurar a garrafa com uma mão e lavar com a outra no cubículo chamado de banheiro (para se ter uma idéia, tem gente que não consegue sequer lavar os pés no box). A opção, caro leitor, é importar umas perucas chiquérrimas de Atlanta e passar a máquina.
A pele é outra estória, até agora sem solução. Pipocaram-me os ombros e o peito, modos que tenho de usar roupas com manga e sem decote. Não tem base ou pó compacto que dê conta das bolinhas vermelhas. Um drama. Assim, se alguém tiver uma idéia mirabolante do que pode ser, aceito sugestões de remedinhos possíveis de achar localmente ou presenteados por correio (por FedEx que chega mais rápido). E para fechar o início de meu inferno astral, o pescoço anda enferrujado e sem querer se mexer muito. Vou já ali na Santa Sé achar uma água benzida pelo Papa.

29 de agosto de 2011

Roma não se fez em um dia



Passei minha segunda semana tentando entender a lógica romana _ tarefa um tanto inglória, confesso. Em minha busca por casa, gastei meus dedos ligando para as imobiliárias, meu tempo procurando apartamento na internet e em jornais e meu vocabulário italiano inteirinho deixando mensagens de voz. O saldo é que aprendi que o tempo romano é outro, quase atemporal, e que sem doses abundantes de paciência não conseguirei manter os cabelos na cabeça.  Apesar das muitas sessões de terapia me preparando para a mudança de marcha que enfrentaria aqui, descobri que vou precisar de muito mais vinho do que antecipei.

Obviamente é cedo para bater o martelo, mas nas minhas duas primeiras semanas, não estou impressionada com a comida e não achei vinho digno de nota, coisas pelas quais os italianos são conhecidos. Por enquanto, vou vivendo da beleza da cidade; essa sim incontestável, e das pequenas descobertas da vida aqui.  O romano esconde a geladeira por trás de armários, fecha a sorveteria na semana mais quente do ano para ir pra praia, constrói cozinhas menores que os banheiros, mora com a mamma até depois dos quarenta, adora fritura, mas considera manteiga uma aberração calórica, fuma compulsivamente, vende sal na tabacaria e fósforos em loja de decoração e se veste invejavelmente bem. Aliás, acho que esse negócio do fósforo ainda é resquício do incêndio provocado por Nero. Com trauma não se brinca.

Junte-se a isso minha dificuldade em encarnar o papel de gente grande. Tomar tantas decisões pequenas que farão o conjunto valer a pena é pesado. Morar um pouco mais longe e ter uma casa maior ou ficar no centro em um apartamento menor? Pegar ônibus pro trabalho ou ir caminhando? Qual telefone ter? Que plano? Empregada ou não empregada? Tudo muito adulto e muito novo. E aqui ainda não tenho meu faro. Nem referência. E nem lógica. Tem só aquela pessoa que está me encarando no espelho com cara de interrogação.

PS. Agora que o vizinho da frente passou a colocar mantra budista e incenso toda tarde para vizinhança, o bebê finalmente parou de chorar. 

22 de agosto de 2011

Conselhos cínicos de uma velha cidadã do mundo*



Querida amiga mulher,
Hesitei muito em escrever essa carta, pois penso que conselho nunca é a maneira menos eficaz de ajudar um necessitado, mas diante das parcas opções, esta lhe servirá por agora. Lembro-lhe que também fui jovem e tive, como você e até mais, amores impossíveis e arrebatadores. Ffalo com juízo de causa.
Antes de sair de seu país para viver com sua cara-metade, considere as seguintes questões: você é adulta e deve se responsabilizar pelas suas decisões. Não adianta culpar o país do outro, a família do outro, a cultura do outro. Se você já é grande o suficiente para decidir morar com o outro, é grande o suficiente para assumir seus erros.
Aprenda a língua antes de ir morar no país e de ter filhos com ele. Nunca se sabe o que vai acontecer. Ele pode morrer em um acidente, ir pra guerra, ser raptado ou simplesmente te espancar diariamente e você vai precisar saber se comunicar se quiser sobreviver.
Creia que todo ser humano, sob certa pressão, é capaz de fazer coisas que normalmente não faria. Aquele homem doce, carinhoso, amoroso pode sim se tornar o monstro que te tranca em casa e rapta seus filhos. Assim como você também, sentindo-se ameaçada, é capaz de muito mais.
Não se pode ter o melhor de dois mundos, então aprenda a conviver com as diferenças e a não ligar a cada briga para o consulado brasileiro. Crie ao seu redor uma rede de proteção e comunicação constante com outras pessoas. Assim, caso necessário, você terá testemunhas e com quem contar.
E por último, simplifique sua vida. Quanto menos maridos, filhos, divórcios, casamentos e nomes você tiver, mais perto da paz almejada você estará, não importa onde ou com quem.

* Baseado em fatos reais e no livro que estou lendo.

18 de agosto de 2011

Sobre todas as coisas



Estou desconfiada que o bebê do vôo mora no vizinho da frente. Devido a quantidade de melatonina que estou tomando para me adaptar ao fuso horário, decidi que nunca mais saio daqui, a não ser para lugares com duas horas a mais ou a menos. Não bastasse a insônia normal, agora durmo na hora que preciso estar acordada e acordo quando deveria estar dormindo.
Descobri a primeira grande maravilha de Roma. Não, não são as gelaterias; são as fontes de água geladinha espalhadas pela cidade. Você anda um pouco, sua que nem chaleira até a próxima fonte, molha o rosto, o cabelo, os pés, o que mais te deixarem e continua sua marcha até o próximo ponto turístico. Eu sei, era pra eu estar procurando escola de italiano, academia, casa… mas até o fim de agosto tenho sorte do mercado da esquina estar aberto (o caixa me perguntou ontem se sou turista. Ele não entende que, como está tudo fechado, só dá pra visitar o mercado mesmo).
E agora que tenho internet, minha grande conquista será um adaptador que funcione nessa tomadas. Aqui em Roma tem tomada para todos os gostos, menos para o dos meus aparelhos. Tem de três furinhos seguidos, dois em cima e um embaixo, um maior e outro menor, um mais achatadinho mas não tem adaptador universal que se adapte ao sistema americano e ao romano ao mesmo tempo. Assim, passo boa parte das tardes me perdendo nas ruas da cidade e descobrindo que realmente todos os caminhos levam a Roma, porque sempre volto ao mesmo lugar. Nasci desprovida de GPS interno, fazer o quê?

17 de agosto de 2011

Capítulo 2: Roma

Chego em Roma ainda com o ouvido zunindo por causa do choro daquele bebê na fileira atrás de mim e com muito sono, mas o motorista já está a minha espera e anda rapidinho que nem formiga guiada pelo cheiro de açúcar no meio da multidão. Lá fora a cidade me saúda com belos 450 graus, na sombra.
Como o motorista não sabe bem onde morarei pelo próximo mês, liga para a corretora para pegar referências, que nos levam até a esquina de uma rua com o nome parecido com o da rua onde veramente viverei. Passamos os dois, carregados de malas, pela corretora, ocupada demais ao telefone para nos notar e, depois de cinco voltas no quarteirão, damos de cara com o beco onde o apartamento está localizado.
A primeira notícia é que o elevador do prédio está quebrado e que não há previsão de conserto, já que é ferragosto e a cidade ainda descansa na praia. A má notícia é que o apartamento fica no quarto andar, obviamente.
Subimos uma escada em espiral, pequena demais até para meu pé 33, e depois de umas quatro paradas para fôlego, entramos no apartamento. Feitos os trâmites de praxe, a inglesa me explica que depois de morar quarenta anos aqui, descobriu que é preciso abraçar a burocracia, ligar o f*-se e aproveitar esse enorme museu a céu aberto. O clima é ameno, a comida de dar inveja, o povo alegre e hospitaleiro. O que mais posso querer?
Acesso à internet e ar condicionado, talvez? Hmmmm. Hoje a tarde sem falta ela trará a chave mágica que abrirá as portas domeu mundo virtual  (que eu não me preocupe). Quanto ao ar, as janelas estão todas abertas, assim tenho ar fresco. :-S
Depois de me apresentar para o serviço, agora já bêbada de sono e cansaço, passo no "super"mercado para alguns itens básicos de sobrevivência que cabem dentro da mochila. Chego no apartamento já meio que por osmose e logicamente a inglesa, que perdeu o conceito de pontualidade britânica há anos, não me conectou ao mundo virtual.
Apesar dos 750 graus, deito e durmo pesadamente. Acordo com os sinos da igreja tocando, viro para o lado e durmo de novo. Agora, às 21h, a noite chegou por completo e com ela os pernilongos. É preciso decidir se morro de calor ou de mordidas. Como diria Scalet O'Hara, "amanhã eu penso nisso".

24 de julho de 2011

Note to the church of Christ in Atlanta

To the church of Christ on Wieuca and Re-church,

As I leave to a new journey, I want to thank each and every one of you who walked with me for the past three years. Wieuca was the first church I visited when I arrived in Atlanta and it became part of my life from that first Sunday on. Little did I know back then that your faces would accompany me through my pains, joys, obstacles and achievements in the USA.
I thank you for the opportunity of sharing bread and wine, thoughts and theologies, agreeing to disagree, help and support the community, volunteer and be actively part of the body of Christ in fellowship with you.
I thank God specially for the ones who put time and effort and faith and prayer to make Re-church happen and allow me to be part of this wonderful vision of Christianity today. I pray that God will encourage you, wherever you are now, to be a living example of what Re-church stood for. You taught me so very much and were amazingly present when I was alone and in despair. I will remember your faces and say a prayer for you so that your journey may be filled with love and courage.
To my brothers and sisters at Freedonia, may the Lord keep you and bless you. May He be the continuous   focus of you and may He multiply the love and koynonia among you many times more than I can count.To all of you, Luda, Penny, Marlee, Connie, Stephanie, Debra and Scott, Matt, Abby and Jake, Michael and Vicky, Cecil and his belated wife, Susan, Allan and Jim, Gil, Linda, Kim, John and Missy, Sharon, Robin, Steve and so many others, my sincere thank you.

Blessings and love,

Marília

2 de junho de 2011

The bigger person



Apesar de vivermos expostos à idéia de inimigos, raramente encontramos pessoas que têm inimigos. Eu, por destino ou acaso, sou uma delas.
Meus inimigos não são como os personagens de quadrinhos, altamente maquiavélicos e maniqueístas, embora eu tenha enorme dificuldade de ver seu lado humano. Tampouco são pessoas com superpoderes ou publicamente odiados. Na verdade, desde cedo, percebi que meus inimigos são assim uma mescla de Darth Vader ("I'm your father, Luke") com Coiote (os inúmeros planos infalíveis). A paixão com que me odeiam e os meios que escolhem para me prejudicar são assustadoramente reais, embora haja uma linha tênue que espera que no fim eu me redima e vá para o lado negro da força.
Confesso que apesar de tantos anos convivendo com mais do que a idéia de ter um inimigo, ainda não me acostumei com a realidade tangível de ter um ali mesmo na sala ao lado. De fato, o que mais me incomoda é não saber como agir. Ser o super-herói que dá a mão quando o inimigo está na beira do abismo só para ser ludibriada novamente ou usar meus raios mortais para eliminá-lo totalmente? Talvez desarmá-lo para que a polícia tome conta ou ainda ser a melhor cristã e dar a outra face?
Enquanto nado nesse mar de criptonita que é a dúvida, descubro que independente do meu inimigo e como vou eliminá-lo, aprendo cada dia mais sobre a capacidade humana de ser intrisicamente má. Com ou sem acento.