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4 de setembro de 2011

Inferno astral




Estou tendo uma reação alérgica a Roma. Sort of. Na verdade, meu cabelo e minha pele resolveram se voltar contra mim e eu preciso culpar alguém. Nesse caso, o bode espiatório é a água. A água aqui é feita de uma molécula de calcário e duas de oxigênio, tudo muito bom para os vinhos e as esculturas, mas péssimo para meus frágeis (e rebeldes) cabelos. Daí que a pessoa descobriu que para manter a saúde dos meu cachos, terei de lavá-los com água mineral. Sim, vocês leram bem: água mineral. Além de ser um capricho um tanto custoso, imaginem a ginástica que é segurar a garrafa com uma mão e lavar com a outra no cubículo chamado de banheiro (para se ter uma idéia, tem gente que não consegue sequer lavar os pés no box). A opção, caro leitor, é importar umas perucas chiquérrimas de Atlanta e passar a máquina.
A pele é outra estória, até agora sem solução. Pipocaram-me os ombros e o peito, modos que tenho de usar roupas com manga e sem decote. Não tem base ou pó compacto que dê conta das bolinhas vermelhas. Um drama. Assim, se alguém tiver uma idéia mirabolante do que pode ser, aceito sugestões de remedinhos possíveis de achar localmente ou presenteados por correio (por FedEx que chega mais rápido). E para fechar o início de meu inferno astral, o pescoço anda enferrujado e sem querer se mexer muito. Vou já ali na Santa Sé achar uma água benzida pelo Papa.

18 de agosto de 2011

Sobre todas as coisas



Estou desconfiada que o bebê do vôo mora no vizinho da frente. Devido a quantidade de melatonina que estou tomando para me adaptar ao fuso horário, decidi que nunca mais saio daqui, a não ser para lugares com duas horas a mais ou a menos. Não bastasse a insônia normal, agora durmo na hora que preciso estar acordada e acordo quando deveria estar dormindo.
Descobri a primeira grande maravilha de Roma. Não, não são as gelaterias; são as fontes de água geladinha espalhadas pela cidade. Você anda um pouco, sua que nem chaleira até a próxima fonte, molha o rosto, o cabelo, os pés, o que mais te deixarem e continua sua marcha até o próximo ponto turístico. Eu sei, era pra eu estar procurando escola de italiano, academia, casa… mas até o fim de agosto tenho sorte do mercado da esquina estar aberto (o caixa me perguntou ontem se sou turista. Ele não entende que, como está tudo fechado, só dá pra visitar o mercado mesmo).
E agora que tenho internet, minha grande conquista será um adaptador que funcione nessa tomadas. Aqui em Roma tem tomada para todos os gostos, menos para o dos meus aparelhos. Tem de três furinhos seguidos, dois em cima e um embaixo, um maior e outro menor, um mais achatadinho mas não tem adaptador universal que se adapte ao sistema americano e ao romano ao mesmo tempo. Assim, passo boa parte das tardes me perdendo nas ruas da cidade e descobrindo que realmente todos os caminhos levam a Roma, porque sempre volto ao mesmo lugar. Nasci desprovida de GPS interno, fazer o quê?

18 de dezembro de 2010

In the battlefield



A tristeza agora chega sem fazer cerimônia. Se aboleta no meu peito e, de vez em quando, aperta meu coração com ambas as mãos para me lembrar quem está no controle. Vai usando a falta de serotonina para viajar pelos meus neurônios até convencer meu próprio cérebro que chegou para ficar. Eu, já acostumada com ela, finjo que não vejo. Quem sabe ela se manca e cai fora? Quem sabe se eu a ignorar ela simplesmente canse de mim?
Mas ela não vai. Pelo contrário, convida mais amigos. Não passa muito tempo vem a insônia, a impaciência,  solidão e o pior de todos, o medo. São seres notívagos e famintos e me sugam como bebê recém-nascido. Não tendo mais como ignorá-los, visto a armadura da auto-defesa e começo a traçar meu plano de ação. Passo horas lançando mão de todo o arsenal que me foi dado para combatê-los. Na linha de frente, o antidepressivo. Nos flancos direito e esquerdo, a terapia individual e a em grupo. Na retaguarda, grupo de apoio.
Meus inimigos não se fazem de rogados, pois conhecem bem minha defesa. Atacam latentemente e por todos os lados. Vão me encurralando dentro de mim mesma e da minha mente, minando a esperança e a fé. Eu, já fraca, vou arrefecendo. Meus soldados estão famintos e feridos. Minhas armas, gastas. Preciso muito mais força e vontade para continuar resistindo até que cheguem reforços. But wait, de onde virão meus reforços? Quem foi avisá-los que a batalha está por um fio? Chegarão a tempo? Trarão comida, cobertores, bandagens? Novo plano de ação e armas?
Mas agora é noite e o ataque está prestes a recomeçar. Hora de voltar à vigília, me certificar que todos os pontos foram cobertos e rezar para que eu dure só por hoje.