26 de outubro de 2011



No dia em que completei trinta anos, uma de minhas melhores amigas me liga para me dar os parabéns e me lembrar que minha corrida contra o relógio estava começando. Daí em diante, sempre tem alguém por perto que se incomoda com o fato de eu ser (ou será estar?) solteira. E por que será que incomoda o stigma? O artigo All the Single Ladies da escritora norte-americana Kate Bolick  examina de perto a causa do número crescente de mulheres solteiras no mundo e chega à seguinte conclusão: ou a mulher aceita casar-se com um homem "bom o suficiente" ou precisa rever os conceitos tradicionais de família, romance e casamento.

O primeiro fator culpado do aumento do número de solteiros é o fato das pessoas estarem se casando cada vez mais tarde. Isso devido à mentalidade contemporânea de atigir primeiramente satisfação pessoal; ou seja, antes de formar família, vêm estudos, carreira bem sucedida e independência financeira. Chega-se ao ponto de discriminar a mulher que se diz "do lar" (será que ela não tem ambição? auto-estima? vergonha?).

Do mesmo modo, as mulheres têm engravidado mais velhas, quando decidem ter filhos, e não dependem do homem para fazê-lo graça aos avanços da medicina. Uma conhecida acaba de dar à luz aos quarenta e dois anos em uma gravidez de fazer inveja às adolescentes. Seja por opção ou por abandono, ser mãe solteira deixou de ser motivo de vergonha ou desonra.

Outro fator desfavorável ao casamento é o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres na maioria dos países. Estudos mostram que em sociedades onde há mais homens, embora os direitos como educação e salário das mulheres diminua, há maior valorização do sexo feminino, mais casamentos e menos divórcios. Infelizmente, o contrário não se aplica. Em sociedades onde o número de mulheres é maior do que o dos homens, aumenta a margem de promiscuidade masculina e a taxa de casamentos cai. Nem é preciso dizer que nesse modelo quem se benefícia são os homens, que passam a ditar as regras do jogo. Considere que um bom partido pode se dar ao luxo de trocar de parceira o quanto quiser e não se comprometer com nenhuma.

Em quarto lugar, Bolick afirma que o movimento feminista gerou a ascensão da mulher e o consequente declínio do homem (a literatura sobre esse assunto é riquíssima). Há inúmeros estudos que comprovam que atualmente a mulher é  mais bem qualificada profissional ou educacionalmente do que o homem. Com mais mulheres assumindo cargos altos e ganhando mais, fica mais difícil encontrar homens do mesmo nível social. O resultado? O homem aceita não ser mais o provedor da família e a mulher aceita um homem de nível inferior ao seu.

Mas nem tudo é ruim neste cenário. Com a independência feminina, o casamento passa a ser uma escolha e não um meio de ascensão social ou obrigação e o conceito atual de um bom relacionamento abrange casais cada vez mais mistos: mulheres mais velhas com homens mais novos, mais ricas com mais pobres, mais altas com mais baixos, etc). Diante desses dados sei que parece que achar um companheiro parece ser um lance de sorte. E é. Mas se olharmos de um outro ângulo, não é também sorte sermos testemunhas de tantas mudanças e poder vivenciar um mundo com mais possibilidades?